Fundador e investidor ajustam cadeado digital sobre gráfico de ações

Negociar cláusulas de lock-up em rodadas de investimento é, para mim, mais do que um simples ritual contratual. É, na maioria dos casos, onde as conversas sobre confiança e previsibilidade realmente se transformam em compromissos práticos. Trago aqui um panorama de tudo que vi, vivi e concluí em negociações que envolvem restrições de liquidez, alinhamento de interesses e, acima de tudo, construção de valor com transparência.

Entendendo o lock-up na prática

Se você já esbarrou no termo lock-up ao tentar captar recursos, deve ter notado que ele gera dúvidas, receios e, por vezes, até debates acalorados entre founders e investidores. Lock-up é uma cláusula contratual que impede a venda ou transferência de ações/quotas por um período determinado após a rodada de investimento.

Em minhas experiências com startups e fundos, percebi que a essência do lock-up vai além da simples restrição: trata-se de proteger o investimento, garantir estabilidade e evitar movimentos bruscos no cap table quando a empresa ainda está em crescimento.

O lock-up é como um alicerce temporário: ele serve para garantir que ninguém tire peças da “construção” antes dela ficar sólida.
Grupo de pessoas em uma reunião de negócios discutindo cláusulas contratuais

Por que investidores e empresas pedem lock-up?

Muitas vezes, vejo investidores argumentarem que o lock-up reduz riscos de liquidação de posições logo após a rodada, algo que, segundo estudos acadêmicos sobre IPOs, pode pressionar o preço dos papéis e gerar instabilidade conforme artigo publicado na Revista Contabilidade & Finanças. Já os founders se preocupam com amarras excessivas que dificultam saídas legítimas, inclusive em contextos pessoais imprevisíveis.

  • Do lado do investidor: preservação do valor da empresa e do investimento realizado;
  • Para os sócios fundadores: sinalização de compromisso com o negócio e alinhamento na construção do futuro;
  • Na perspectiva do negócio: estabilidade para futuras rodadas e negociações estratégicas.

A arte está em equilibrar esses interesses. É o momento em que a visão de longo prazo se concretiza em cláusulas objetivas.

Principais pontos de negociação de um lock-up

Baseando-me nas negociações de contratos de investimento, listei os pontos que considero mais sensíveis quando discuto cláusulas de lock-up em acordos entre sócios ou em rodadas de captação:

  1. Duração do lock-up: em geral, períodos de 12 a 36 meses têm sido mais comuns em operações de venture capital. Menos tempo pode soar como risco ao investidor, enquanto prazos longos demais tiram flexibilidade dos sócios.
  2. Escopo da restrição: quem fica impedido (fundadores, todos os sócios, colaboradores com equity, etc.)? Costumo recomendar que o lock-up seja proporcional ao papel de cada pessoa no negócio, evitando restrições genéricas.
  3. Hipóteses de exceção: mudança de controle, liquidez por falecimento ou incapacidade, oferta pública ou “trigger” de eventos estratégicos precisam estar bem mapeados. Uma negociação transparente nessas exceções é fundamental para evitar conflitos no futuro.
  4. Penalidades e consequências: se alguém descumpre o lock-up, o que acontece? Prefiro prever consequências claras, como direito de preferência de recompra pelo próprio veículo de investimento, para não deixar brechas para discussões futuras.

Esses quatro pilares aparecem, de um jeito ou de outro, quase sempre nos acordos de sócios mais completos.

Como apresentar argumentos em rodadas de captação

Já participei de conversas em que o tema do lock-up ameaçou virar impasse. Quando isso acontece, procuro sempre trazer à mesa dados e benchmarks de mercado, colocando todos no mesmo patamar de informação.

Alguns estudos publicados pela USP mostram, por exemplo, que a liberação de restrição de venda de ações pode gerar quedas significativas de preços e uma volatilidade acima do esperado de acordo com artigo acadêmico. Trazer este tipo de referência é útil, pois tira a negociação do campo “pessoal” e coloca o foco no racional econômico. Em contrapartida, já vi startupeiros relatores de casos nos quais lock-ups excessivos em meio a choques externos, como crises macroeconômicas, minaram a capacidade de adaptação e responder rapidamente a oportunidades – como relatado em estudo sobre efeitos na pandemia de COVID-19.

Ou seja: usar dados de pesquisas e experiências do mercado como argumento na mesa torna as conversas mais objetivas e a negociação mais produtiva.

Riscos e cuidados ao aceitar cláusulas restritivas

No meu acompanhamento prático, percebo que a aceitação de lock-up sem a devida reflexão pode gerar embaraços. São riscos que, se mal dimensionados, trazem prejuízos tanto para quem pretende permanecer quanto para quem, por qualquer motivo, precise sair da sociedade.

Lock-up mal definido pode travar negociações futuras e prejudicar o crescimento da empresa.

Por isso, avalio que é fundamental:

  • Mapear detalhadamente todas as situações de saída e entrada de sócios;
  • Alinhar lock-up com cláusulas correlatas: direito de preferência, drag-along e tag-along;
  • Testar, em simulações, como o cap table reage diante de eventos imprevistos.

Essa análise deve ser minuciosa, especialmente em contratos de mútuo conversível e SAFEs, conforme escrevi em um artigo sobre estratégias para rodadas e contratos.

Gráfico visualizando o impacto de lock-up em negociações de investimentos

Cláusulas de lock-up e a governança estratégica

Em muitos casos, recomendo tratar a cláusula de lock-up não isoladamente, mas como elemento de uma governança mais sofisticada. Fresco na minha memória está um caso em que uma governança sólida, com políticas de entrada/saída, restrição à venda e direitos de preferência bem definidos, evitou litígios e desencontros entre as partes. O conjunto dos contratos, quando bem costurados, é capaz de proteger e dar fluidez ao crescimento.

Termos como drag along, tag along, vesting e outros se articulam com o lock-up como mecanismos complementares. Em cada negociação, procuro desenhar o “time” completo dessas proteções, para não criar gargalos nem deixar pontas soltas.

Dicas para negociar lock-up sem travar o negócio

  1. Vá além do padrão: personalize o lock-up conforme o contexto da rodada e o perfil do negócio;
  2. Planeje o cap table a médio e longo prazo, considerando novas rodadas;
  3. Transforme o lock-up em cláusula de alinhamento estratégico, e não apenas punitiva;
  4. Mantenha uma comunicação aberta entre todas as partes envolvidas;
  5. Consulte benchmarks e estudos para embasar sua argumentação. Exemplos práticos podem ser encontrados nos cases de fundraising;
  6. Jamais negligencie a análise de preferência de liquidação, já que alterações nesse ponto podem afetar avaliações futuras e gerar desalinhamentos econômicos, como mostra a pesquisa da FEA-USP;
  7. Formalize tudo em documentos claros e objetivos, como nos checklists sobre contratos de investimento.

Conclusão

Negociar cláusulas de lock-up em rodadas de investimento é um processo de construção de confiança, previsibilidade e alinhamento de interesses. Na minha experiência, é fundamental enxergar o lock-up como peça de um sistema de governança e não um mero acessório contratual. Quando bem negociado, o lock-up protege, estimula o crescimento sustentável e evita conflitos futuros. O segredo está na personalização, no uso racional de dados e benchmarks e na clareza contratual, favorecendo tanto a proteção do investidor quanto a liberdade e motivação dos sócios fundadores. Saber negociar essa cláusula é também entender qual valor se quer construir, e proteger.

Perguntas frequentes

O que é uma cláusula de lock-up?

Cláusula de lock-up é uma restrição contratual que impede a venda ou transferência de ações/quotas por um determinado período após a captação de investimento. Ela protege o interesse dos investidores e busca garantir estabilidade na sociedade durante fases críticas do crescimento.

Como negociar cláusulas de lock-up?

Negociar cláusulas de lock-up exige análise do prazo, abrangência e hipóteses de exceção, personalizando conforme o contexto e alinhando expectativas entre sócios e investidores. Costumo dialogar com base em dados de mercado, ajustando prazos e condições para que não travem a flexibilidade do negócio, mas também tragam segurança à operação.

Quais riscos o lock-up traz?

O lock-up pode limitar a liberdade dos sócios de realizar liquidez quando necessário e, se muito restritivo, inibir respostas rápidas a oportunidades de mercado. Também pode prejudicar rodadas futuras se não estiver bem desenhado. É fundamental prever exceções e analisar impactos sobre situações de stress econômico, como mostram estudos sobre a performance de empresas em períodos de lockdown em pesquisa da USP.

Quando usar cláusula de lock-up?

Utilizo cláusulas de lock-up geralmente em rodadas em que o investidor pede garantias de permanência dos principais sócios ou quando o estágio da empresa requer estabilidade para captação. Também aparecem quando há eventuais riscos de saída precoce dos fundadores ou desequilíbrio no cap table.

Quais alternativas ao lock-up existem?

Alternativas ao lock-up envolvem outras proteções contratuais, como direito de preferência, vesting, cláusulas de drag along e tag along, além de acordos bem elaborados de saída e recompra de participação. Em alguns cenários, a combinação de mecanismos pode ser ainda mais eficaz para alinhar interesses do que uma restrição exclusiva de venda.

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Matheus Martins

Sobre o Autor

Matheus Martins

Sou advogado especializado no apoio a empreendedores, especialmente do setor de tecnologia, auxiliando nas tomadas de decisão, estruturação de operações e negociações. Com uma abordagem próxima, pragmática e focada na solução efetiva de problemas, busco simplificar questões jurídicas complexas para garantir clareza e segurança em negócios. Meu trabalho alia leitura de negócios à visão jurídica para apoiar o crescimento das empresas de forma estratégica e segura.

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