Quadro de vidro com termos de contrato destacados em ambiente corporativo moderno

No universo das empresas de tecnologia, participar de uma negociação de M&A (fusões e aquisições) é um tema cada vez mais comum. Eu já vi startups nascendo com o objetivo claro de chegar ao "exit" – ou seja, serem adquiridas. E o Brasil tem visto uma movimentação intensa, com 827 transações e R$ 146 bilhões envolvidos só no primeiro semestre de 2025, segundo levantamento reportado em fusões e aquisições movimentam R$ 146 bilhões no primeiro semestre. No entanto, sei por experiência própria como a parte contratual pode se tornar uma das fases mais complexas para founders e gestores que precisam conduzir negociações estratégicas sem perder o foco no crescimento. Neste artigo, explico de forma clara os termos mais recorrentes e suas consequências práticas para o seu negócio.

O que significa M&A?

M&A, sigla para Mergers and Acquisitions (Fusões e Aquisições), representa uma operação na qual empresas se unem ou uma adquire a outra. É uma ferramenta importante tanto para grandes corporações quanto para startups, especialmente aquelas que buscam escalar ou encontrar novos mercados. Já testemunhei como esse processo pode ser decisivo para destravar valor, acessar novos clientes ou até garantir a sobrevivência em mercados competitivos. Você encontra um conteúdo detalhado sobre o conceito em o que é M&A.

SPA (Share Purchase Agreement): o coração do contrato

O SPA é o documento principal que formaliza a compra e venda de ações em uma negociação de M&A. Ele vai muito além do simples "eu vendo, você compra". Em minha experiência, vi muitos empreendedores subestimando o grau de detalhe desse documento. É nele que as condições de pagamento, declarações das partes, garantias (representations & warranties), penalidades e outros pontos fundamentais são definidos.

SPA não é só “papel”, é estratégia escrita.

O SPA estabelece:

  • Identificação das partes e ativos negociados
  • Preço e forma de pagamento (à vista, parcelado, earn-out, etc.)
  • Condições de fechamento
  • Obrigações e responsabilidades posteriores
  • Cláusulas de indenização

Na minha trajetória, já vi casos em que detalhes ignorados neste documento trouxeram grandes prejuízos futuros.

Earn-out: alinhando interesse e desempenho

Um dos conceitos que mais gera dúvidas é o earn-out. Trata-se de um mecanismo em que parte do pagamento da aquisição depende do atingimento de metas específicas após o fechamento do negócio, como receita, EBITDA ou número de usuários.

Earn-out é o “se bater a meta, leva mais”.

Imagine que um investidor compre uma startup por R$ 10 milhões, mas só R$ 7 milhões são pagos na assinatura. Os outros R$ 3 milhões dependem do crescimento projetado ser atingido em um período de 24 meses. O earn-out serve para reduzir riscos para o comprador e manter o vendedor engajado na empresa.

No entanto, é um dos pontos mais sensíveis na negociação. Já observei desavenças quando metas não são bem definidas ou os indicadores são facilmente manipuláveis. Para quem quiser se aprofundar, o artigo sobre estrutura de earn-out em M&A aprofunda esse tema.

Holdback e escrow: proteção contra riscos e surpresas

O holdback é quando uma parte do valor da venda fica retida temporariamente para cobrir eventuais passivos que aparecerem depois do fechamento. Não é raro que uma empresa adquirida descubra problemas “escondidos” após a assinatura: ações trabalhistas, passivos fiscais, dívidas não reveladas e etc. O holdback serve como um colchão para ajustes, reparando prejuízos que surgirem.

Ligado a isso, o escrow é como um “cofre neutro”: o valor fica numa conta controlada por um terceiro (um agente de escrow, geralmente uma instituição financeira), liberado conforme condições definidas no contrato. Já vi essa solução sendo usada para destravar negociações travadas por desconfiança, trazendo tranquilidade para ambas as partes.

Escrow: confiança garantida, mesmo entre desconhecidos.

Esses mecanismos são preciosos para trazer previsibilidade, transparência e, principalmente, evitar litígios longos e custosos no futuro.

Tag along e drag along: direitos dos sócios em caso de venda

Quem atua ou investe em startups já se deparou com as cláusulas de tag along e drag along, fundamentais quando há sócios minoritários.

Tag along: proteção aos minoritários

No tag along, o minoritário tem o direito de vender suas ações junto com o controlador caso este venda sua participação para um terceiro. É uma maneira de garantir que o pequeno sócio tenha a mesma condição do majoritário. Na prática, já presenciei discussões acaloradas na mesa de negociação sobre o percentual e preço aplicável ao tag along. Na maioria das vezes, se bem estruturado, ele evita injustiças e desalinhamentos entre sócios.

Drag along: poder de decisão dos controladores

No drag along, o controlador pode obrigar outros sócios a venderem suas ações para viabilizar uma venda total da companhia. Esse termo ganha relevância, especialmente em rodadas de investimento, pois permite que um negócio estratégico não seja bloqueado por sócios minoritários que discordem do deal. É importante definir claramente os gatilhos e valores para uso dessa cláusula.

Outros termos relevantes em contratos de M&A

Nos bastidores dessas negociações, outras cláusulas também fazem parte do arsenal estratégico. Listo algumas que já vi trazendo discussões longas em reuniões:

  • Due diligence: processo minucioso de investigação e verificação de informações jurídicas, financeiras e operacionais da empresa-alvo antes do fechamento da operação. Costuma ser decisivo para ajustes no preço ou até abandono do negócio. Detalhes sobre o funcionamento podem ser conferidos em aquisição empresarial.
  • Non-compete: impede que os antigos donos abram negócios concorrentes após venderem sua empresa.
  • Representations & warranties: declarações e garantias sobre o estado da empresa, que, se violadas, geram indenização.
  • Material adverse change: cláusula que protege o comprador contra eventos negativos inesperados entre a assinatura e o fechamento do negócio.
  • Break-up fee: multa se uma das partes desistir sem justificativa após acordar as condições principais da transação.

Quando esses termos não são bem discutidos (ou entendidos), o processo vira uma fonte permanente de incertezas. Em negociações complexas, sempre recomendo estudar mais sobre acordos de sócios e as 10 cláusulas que podem mudar seu resultado, como apresentado em acordos de sócios.

Exemplos práticos e implicações jurídicas

Para um fundador ou executivo de tecnologia, conhecer a aplicação prática dessas cláusulas faz toda a diferença:

  • Num caso real que acompanhei, a definição cuidadosa da cláusula de escrow evitou que o comprador perdesse milhões com passivos ocultos.
  • Vi founder se frustrando porque o earn-out estava baseado em critérios fáceis de serem alterados... e, no fim, não recebeu nem metade do que imaginava.
  • Durante uma negociação, uma cláusula de drag along permitiu o fechamento de uma venda estratégica, apesar da resistência de sócios minoritários.

Esses detalhes jurídicos ultrapassam o texto do contrato. No fim, são ferramentas que permitem transformar oportunidades em valor real, protegendo quem está no jogo e incentivando novas transações, como mostram os números recentes desse mercado.

Conclusão

Negociar um contrato de M&A é navegar por uma série de riscos e oportunidades. Quem quer construir/escapar do operacional e criar valor de verdade precisa dominar os termos, saber suas consequências e identificar como cada cláusula pode impactar o negócio, o bolso e a expectativa de todos ao redor.

Blindar o contrato é o primeiro passo para blindar o valor criado.

Para quem busca ainda mais informações técnicas, recomendo ler conteúdos especializados categorizados em artigos sobre M&A.

Perguntas frequentes sobre contratos de M&A

O que é um contrato de M&A?

Um contrato de M&A formaliza os termos sob os quais ocorre uma fusão ou aquisição, detalhando quem vende, quem compra, o que está sendo vendido (ações, ativos, etc.), preço, condições, obrigações, garantias e proteção contra riscos. São instrumentos sob medida para captar decisões, resguardar posições e antecipar eventuais conflitos entre as partes.

Quais são os principais termos de M&A?

Os principais termos de M&A incluem SPA, earn-out, holdback, escrow, due diligence, tag along e drag along. Cada um assume o papel de destravar, proteger ou disciplinar etapas da transação, e sua compreensão é fundamental para evitar prejuízos e garantir o sucesso do negócio.

Como funciona uma due diligence?

Na due diligence, o comprador (ou investidor) analisa, de maneira detalhada e documental, todos os aspectos jurídicos, fiscais, contábeis e operacionais da empresa-alvo. O objetivo é garantir que as informações apresentadas são verdadeiras e não existem riscos “escondidos” que possam prejudicar a operação no futuro. Se algo problemático for encontrado, o contrato pode ser ajustado ou a negociação, inclusive, abandonada.

O que é cláusula de earn-out?

Uma cláusula de earn-out define que parte do pagamento da aquisição está condicionada ao alcance de metas futuras pela empresa adquirida. Geralmente, estipula critérios (financeiros ou operacionais), prazos e formas de cálculo para pagamento dessa parcela variável, reduzindo o risco para quem compra e estimulando performance de quem vende.

Como posso negociar garantias em M&A?

Na minha experiência, negociar garantias passa por identificar riscos, estimar valores e colocar condições bem objetivas para responsabilização posterior. Os mecanismos mais comuns são o holdback e o escrow, mas também cláusulas específicas de representations & warranties, com indenizações em caso de descumprimento. Quanto mais claro o contrato, maior a segurança para todas as partes.

Compartilhe este artigo

Quer tomar decisões com mais clareza?

Saiba como ter apoio jurídico estratégico para estruturar e crescer seu negócio de forma segura e ágil.

Saiba mais
Matheus Martins

Sobre o Autor

Matheus Martins

Sou advogado especializado no apoio a empreendedores, especialmente do setor de tecnologia, auxiliando nas tomadas de decisão, estruturação de operações e negociações. Com uma abordagem próxima, pragmática e focada na solução efetiva de problemas, busco simplificar questões jurídicas complexas para garantir clareza e segurança em negócios. Meu trabalho alia leitura de negócios à visão jurídica para apoiar o crescimento das empresas de forma estratégica e segura.

Posts Recomendados